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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Vozes do coração

Mora no meu coração
Uma saudade, que é meu tormento
Do tempo que eu te amava amar amor
Nosso tempo

Tudo, tudo que passou
Está guardado no coração
Agora só a saudade é que restou
Na canção

Quando te reencontrei
Você me trouxe felicidade
Agora no meu verso já não tem
Mais saudade

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Velho galpão

Velho galpão recostado na figueira
Rude bandeira da história do meu rincão
Quartel dos trastes meus aperos estimados
Tentos trançados pelas minhas próprias mãos

De pau-a-pique com chão de terra batida
Serve “praos” homens e animais como guarida
Oh, velho galpão que a minha vida está contida
Em cada prego da parede em cada vão
Em meio a imensidão, do teu valor galpão
És confidente dos meus sonhos de guri
E é por isso que eu não me esqueço de ti

Galpão dos causos e segredos da peonada
Que antes da jornada se abanca pra um chimarrão
Mesmo tapera continuas meu parceiro
Templo campeiro fiz pra ti esta canção

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Amigo velho e companheiro

Amigo velho e companheiro se tu te lembra
Do antigo casarão
E das figueiras todas marcadas de bala
Foi a herança da velha revolução
Foi no sangrento combate do pontal
Que ali morreram muitos heróis desta terra
Para deixar dias melhor a nossa gente
E co’a bandeira do rio grande a sua frente
Tombaram firme com a sua espada na mão

De vez em quando dou uma volta no passado
Tenho a impressão que nada disso aconteceu
Mas a história está bem viva na memória
E até parece que o presente é que morreu

Amigo velho e companheiro se tu te lembra de algo assim tão semelhante
Onde a palavra era o maior documento
E o bigode era o papel mais importante
Mas só o tempo é que nos conta e que nos diz
Que já não temos mais vergonha no país
E que o respeito já deixou de existir
Porque hoje em dia só se fala em cpi
Pra investigar os nossos ditos governantes

Amigo velho e companheiro se tu te lembra do tempo de antigamente
Onde o gaúcho era um nome respeitado
E o cidadão era tratado como gente
Mas muitos choram as amarguras da saudade
Arrependidos por ter vindo pra cidade
Muito não tem as condições de retornar
Moram nas vilas, em barracos, jk
Sentindo a falta da lavoura e da semente

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Só namorar

Prendinha bonita demais eu só quero
Só quero pra namorar
Pra coisa mais séria não dá
Prendinha bonita não sou de casar

O baile era animado e “tava” bom pra “chegá”
Fui tirar a moreninha mais bonita pra “dançá”
O “tocadô” se espichava numa vaneira “ala lôca”
Não resisti teus encantos quando beijei tua boca

Me segurava nos tentos não sou de me “apaixoná”
“pros feitiço” da morena não podia me entregá
Depios bem agarradinho “ficamo” de lero-lero
Eu só pensando naquilo e ela querendo algo sério

Não te apaixona guria, não faz enrosco comigo
Hoje “vamo namorá” e amanhecer bons amigos

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Chuva da saudade

No meu telhado cai a chuva sem cessar
Me despertando do meu delírio de amor
Chuva lá fora viu meu pranto derramar
E acolheu entre suas águas minha dor

Abro a janela e contemplo a chuva caindo
Realidade despertou meu triste encanto
Convido a chuva para vir sofrer comigo
Desabafando sobre mim seu triste pranto

Saio lá fora sra sonhar com a minha amada
Porém meus sonhos se vão rolando com as águas
Triste chorei quando a chuva em mim caiu
Molhou meu rosto e cobriu as marcas da mágoa

Chuva tu és minha fiél companheira
Pois me mostoru entre seus pingos a verdade
Levou pro mar aquela mágoa traiçoeira
Tu será sempre a minha chuva da saudade

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Donde se forma o Rio Grande

São nestes fundos de campo
Donde a boiada engorda
Que a indiada atirando a corda
Faz o Rio Grande crescer

São nas estâncias do pago
Donde existem torenas
Que com cantar de chilenas
Fazem o dia nascer

São nas mangueiras de pedra
Com curunilhas cravadas
Que se termina a potrada
E afloram pingos de lei
É junto a água da sanga
Que a china prende o cabelo
E ata junto ao segredo
D’algum romance ou sorriso

É no galpão frente aberta
De oito “esteio” e quinchado
Que se golpeia um amargo
Beirando algum paraíso
É na campanha querência
Com cruzadores de tropa
Que a alma pampa se topa
A talarear velha bruxa

É na campanha querência
Que um versito faz ponta
E a alma pampa se encontra
Cada vez bem mais gaúcha

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Ai bota e bota

A trotezito com a gaita na garupa
Num upa e upa vem do interior
Bota gaiteiro, gaudério do teclado
Do fole furado e metido a cantor
Vivendo a cidade nunca criou caso
Somente o descaso de alguém mais afoito
Ai respondia na ponta dos dedos
Teclando recuerdos la da vinte oito

Ai bota e bota, e dê-lhe gaiteiro
Que o baile campeiro não pode parar
Afia teus dedos neste teclado
Que o fole furado não vai te negar

Tocou em namoro, noivado e casório
E até em velório tocava a pedido
Mas voltou pro campo viver com os bicho
Da cidade e do luxo está arrependido
Já cortado de “arça” de gaita
Num jeito de taita se bota a tocar
Não cale esta gaita nem por dinheiro
Que o baile campeiro não pode parar

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Programa de auditório

“Temo no ar já tchê, então bamo começá
Muito boa tarde gauchada amiga
Destes rincões desta querência
Estamos com mais um programa de auditório
Nesta linda tarde de domingo
E vai chegá muitos convidados especiais
Nos vem da cidade de santa maria,
Do coração do rio grande
O grupo raízes pra tocar para vocês”

Chegava o primeiro artista,
Dando “boa tarde” pra’o povo
Da mesma forma o segundo e cumprimentava de novo
Dava um “alô” pra o compadre
Pra comadre e as vizinhança
E se achegava o terceiro com abraço pras crianças

E tem gaiteiro, tem pandeiro e violão
É o programa de auditório
Das rádios do meu rincão

Que tempo bom era este, tinha trova e poesia
Qualquer artista de fora era motivo de alegria
Já enchia o auditório pra ver o programa ao vivo
E a indiada da campanha era um ouvinte cativo

Cava um floreio na gaita, o gaiteiro pacholento
Dando o primeiro sinal pro parceiro desatento
Dava adeus pra gauchada cheio de felicidade
Prometendo que voltava em outra oportunidade

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Baile na fronteira

Num baile la na fronteira a gaita se abriu
Rasguemo cinco cordeona o povo aplaudiu
Pois é assim que se toca a noite inteira
Não da pra deixar baixar poeira

Pode ser em livramento ou quarai
Uruguaiana, são borja ou itaqui
Alegrete e rosário também dá
Pra fazer até o galpão se “balançá”

Dê-lhe gaita seu gaiteiro
Não podemo se afroxar
Quero ver a gauchada
Nos merengue se “agarrá”

Acho bem lindo de ver o bicharedo
Passar a noite dançando num “mosquedo”
Da pra entrar de tirador e até chapéu
Pra laçar o chinaredo no sovéu

Tem de tudo quanto é pelo é só escolher
Desse jeito a festa vai amanhecer
Quando toca um vanerão é um entreveiro
Não para toca outra seu gaiteiro

Com o raízes não da pra ficar calado
É só dizer qual é a “marca” do seu agrado
No rio grande a gente sabe como é
Vem pra cá também arrastar o pé

Nos rodeios por ai não “froxemo”o garrão
Uma semana de mosquedo é a tradição
Dê-lhe gaita chamamé e borracheira
Pois assim fizemo léria na fronteira

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Na porteira la da estrada

No silêncio destes mates
O tempo custa a passar
Quem eu amo está distante
E não sei se voltará
Na varanda deste rancho
Tá faltando teu sorriso

O sol vermelho baixando, lembra
As tardes lindas
Que passamos juntos
Já pensei em ir embora
Deixar tapera este rancho solidão
E pensar que a angústia desta espera
Talvez não passe da mais pura ilusão

Se você voltasse amanhã
Juro eu te esperaria
Com flores na porteira lá da estrada
Era tudo o que eu queria

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Peão Farrapo

Ali vem um destes tauras
Que no calor da refrega
Forjou-se sobre o cavalo
Teve a pampa por escola
A lança, espada e a pistola
E um tino para guiá-lo

Não sendo dono da terra
Peleara como se fosse
O senhor das sesmarias
Esquartejando horizontes
Redesenhou mil confrontes
Nas épocas mais bravias

E vai esta rude estampa
Mescla de raiva e carinho
Bravura abrindo caminho
Que a liberdade é um chamado
Que a liberdade é um chamado

Num ajuste fraticida
De contas que nem são suas
Verdades galopam nuas
No pago sendo esporeado

Vai ser um diacho,
Lá adiante
Talvez a morte,
Levante
Num flanco de um descampado
Com sorte sobra-lhe a vida
E as cicatrizes sortidas
De um direito conquistado

E do decênio,
Cruento
Que reste ao tempo
E ao vento
Lições pra se repensar
Quem sabe o futuro entenda
Que se resolvam contendas
Noutras formas de pelear     

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Cavalo bom

 (Refrão)
Quem tem cavalo bom
Quem tem, quem tem
Quem tem cavalo bom
Não fica de a pé na estrada
Pra buscar uma namorada
No farrancho de galpão

O meu cavalo é valente
Sereno e de confiança
Leva a china na garupa
Serve pro andar das crianças
Pelos domingos do pago
Ou nos dias de rodeio
Atento a um jogo de perna
Não precisa “banca” o freio

 (Refrão)

Só quem tem cavalo bom
Que encoste a anca na janela
Aparando de mansinho
Pra não “lastimá” as donzela
Quando tem farra gaúcha
O parceiro sabe da estrada
Levando quieto pro rancho
A mais linda da carreirada

 (Refrão)

Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Baile campeiro

No meu rio grande
Quando ronca uma cordeona
Gauchada querendona
Se prepara pra bailar
E a muierada reboliando os recavem
Pro bailaço também vem
“mui loca” pra namorar
 
(Refrão)
E dê-lhe dança
Que a china velha não cansa
“tando” nos braço é um abraço
Pra quem quer se “acolherá”
Baile campeiro
Tem que ter o velho tempero
Daqueles que o gaiteiro
Rasga a gaita até clarear

E não tem nada
Vamo até de madrugada
É um ditado popular
Pra quem um dia cantou
Nesta província de são pedro
Que te falo
O olhar da china é um pealo
Pra um gaudério cantador
 
(Refrão)

Tem Coisas Que a Gente se Apega (1999)/Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Bagual da Madrugada

Não tem medo de peleia
Sangue de louco nas veia
Enfrenta até o tinhoso
Tem estampa de galã
Primo irmão do “don juan”
Com fama de carinhoso
Anda sempre bem becado
De cabelo aparado
Água de cheiro importada
Ele é o rei da conquista
Já ta com fama de artista
O bagual da madrugada

(Refrão)
Ele é o bagual da madrugada
Ele é a esperança
Das mulheres mal amadas
Ele é o bagual da madrugada
Entra na fila guria
Que eu to com a agenda lotada

Não dura muito o cambicho
Passa em tudo que é bolicho
Procurando nova presa
Tapa a china de carinho
Disfarça e sai de mansinho
E as “vêz” nem paga a despesa
Vira a noite do avesso
De celular e endereço
Tem uma agenda lotada
Vai recorrendo o espinhel
Diz que já nasceu com mel
O bagual da madrugada
 
(Refrão)
"Agora nós "vamo" contá pra vocês
qual é que é, o segredo
do bagual da madrugada"

Ele sabe tudo dessa psicologia
De buteco e de paixão
Olha que eu passei por isso
Deixa que eu tiro o feitiço
Dessa tua solidão
Tu pode contar comigo
Eu vou te mandar um livro
Pra curar a tua dor
E não tem de “côsa” e “lôsa”
Se tu precisar das “côsa”
Hoje eu te tapo de amor

(Refrão)

Entra na fila guria
Minha agendinha ta lotada

Entra na fila guria
Senão tu não arruma nada

Entra na fila guria
Do bagual da madrugada

Para uma Mulher (1997)/Donde se Forma o Rio Grande (2000) - Ginete Peleador

 Quando vem clareando o dia
Levo o potro no palanque
Com garra seguro as crinas
E as esporas cheiram sangue
Alço perna e trepo firme
Já me pondo sobre o lombo
O mango tem rumo certo
Pois não sou de levar tombo

Êra cavalo vou bem firme nos arreios
O mango canta e a espora faz floreio
O basto ringe e a cordeona vem chorando
Mas já vem manso ao parapeito
Vem tranqueando
Sou domador e na minha encilha me sustento
Mas levo um santo por debaixo dos pelêgos
Santo guerreiro traz a imagem de sepé
Me viu crescer nos campos do meu caibaté

Sampo mango na paleta
E as esporas na virilha
O cavalo corcoveia
Mas sou eu quem dito a trilha
Sinto lhe faltar bravura
E o sinal que já se entrega
Mas não confio em ventena
Nem tão pouco lhes dou trégua